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A Pequena Sereia de Sophia de Mello Breyner Andresen (Literatura Infanto-Juvenil)

Page history last edited by begsampaio 7 years, 6 months ago

A PEQUENA SEREIA

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN                                   

                                  

No mais profundo dos abismos do mar, existia um país fabuloso, habitado pelo multicolorido povo marítimo. Entre as muitas casinhas  de  coral e madrepérola surgia  o  grandioso  palácio  do  rei  Triton,  o poderoso soberano daqueles lugares distantes.

Estava sempre muito ocupado, tomado por tantos afazeres de palácio e nos últimos dias estava mais ainda. Estava sendo organizada uma grande festa em honra de Ariel,   a  sua  filha  mais  nova  e  predileta,  que  logo festejaria os dezasseis anos.

Havia momentos intensos, sobretudo para o espetáculo mais esperado :  a sereiazinha cantaria, enfim, algumas doces melodias com sua voz suave.

No entanto, com a desculpa de fazer-se ajudar pelas irmãs para treinar o canto, Ariel estava nos jardins do palácio e perguntava com insistência a uma e a outra  sobre o mundo dos homens, que veria pela  primeira  vez naquela tarde, como presente de  aniversário,  obtendo  a  permissão de subir à superfície.

- Mas, realmente, são assim belos os homens?

- E com isto o que se faz? Dizia mostrando às irmãs um  pente  e outros objetos que havia  encontrado  no  fundo  do  mar,  resultado  de  algum naufrágio.

- E com isto? E com aquilo?

Os poucos dias que faltavam ao grande acontecimento passaram  velozes  e logo veio a tarde tão esperada.

Ariel apresentou-se ao povo do mar adornada  com  magníficas pérolas  e lindíssimos colares que punham em  destaque  a  sua  fulgurante  beleza, tanto que na sala se ouviu  um forte  "Oh,  Oh..."de  grande admiração.

Triton estava orgulhosíssimo , fez um longo discurso e  depois  tomou à parte a sua doce filha e lhe disse:

- De agora em diante poderás ir ver  o  mundo  dos  homens,  mas presta atenção: não te faças nunca ver por eles. Eles se assustariam por  causa de teu especto estranho  e te machucariam. Não tinha  ainda  acabado de pronunciar estas palavras e já a sereiazinha nadava para a superfície do mar.

Qual não foi o seu espanto quando viu pela primeira vez o sol, o céu, os belíssimos pássaros que voavam alegres e no horizonte uma grande ilha.

Ariel logo perdeu a noção do tempo e percebeu de repente que  a  luz do dia estava sumindo. Estava chegando um  vento  forte  e  grossas  nuvens carregadas de chuva e trovões.  A sereiazinha estava  para  mergulhar e voltar para casa, quando viu atrás de si um enorme navio, ao  sabor  das ondas, com o mastro principal quebrado, o  leme  descontrolado,    e  os marinheiros que corriam desesperados no convés.

Aguçando a vista, a sereiazinha descobriu  entre  eles  o  príncipe que comandava o navio, o qual, exatamente naquele momento, surpreendido  por uma onda altíssima, era  jogado ao mar. Ariel nadou rápida para ele e  o socorreu um instante antes de submergir. Levou-o, então, para  longe do navio e rápida, o colocou sobre a praia mais   próxima,  a  salvo. 

Logo lembrou  as  palavras  do  pai  e  se  afastou  velozmente,  conseguindo esconder-se de  uma  moça  que  chegava  para  ajudar  os  náufragos.  A sereiazinha  se escondeu atrás de uns arbustos para admirar  o príncipe com olhares sonhadores.

Quando o príncipe abriu os olhos, viu a moça e acreditou que era  a sua salvadora, por isso pediu para casar-se com ela em  sinal  de gratidão.

Ariel estava desesperada.

Em poucos minutos estava muito apaixonada pelo belíssimo príncipe e não era justo que ele não soubesse nada sobre sua existência!

Nadou, certo, até a escura gruta da bruxa do mar  e  esta  com  sua voz grasnante lhe disse:

- Já sei que queres tornar-se humana e conquistar o coração do teu amado.

Eu posso fazer essa mágica, mas em troca quero a tua voz suave.

Aceitas?

                                  

                                  

                                  

-  Sim  respondeu  prontamente  Ariel.  Logo  depois   viu    a   cauda transformar-se em duas formosas pernas torneadas.

- Mas, lembra, disse também a bruxa, se o príncipe se  casar  com outra mulher, tu te tornarás espuma  branca  do  mar !  Depois, magicamente, enviou-a à praia do príncipe,  onde devido à emoção caiu desmaiada.

Na manhã seguinte, o jovem passeava como de costume pela  praia, quando encontrou a sereiazinha ainda desmaiada. Recolheu-a e a levou para o seu castelo. Quando Ariel  abriu os olhos e se viu  ante  o  belo príncipe, quase desmaiou de novo de tanta emoção. Infelizmente, não tinha voz para lhe declarar o seu amor e devia contentar-se  com expressões de mímicas para comunicar-se com ele. Ariel  teve  cuidados  especiais  e  logo  se refez.

O príncipe lhe tinha grande simpatia  e  passeava  com  ela  por  longos períodos, levando-a aos lugares mais secretos do reino. Frequentemente, paravam o barco à sombra  das árvores, ele  lhe  lia  doces  poesias no silêncio de grutas marinhas. Haviam velejado sozinhos com o grande navio do reino.

A felicidade de Ariel era completa, quando, um dia, o príncipe, com voz grave e triste lhe disse:

- Querida Ariel, dói muito mas devo interromper estes dias maravilhosos.

Prometi há tempos a uma moça que me casaria com ela, pois  me salvou  a vida em uma tempestade  e agora chegou o momento.

A sereiazinha estava desesperada: não somente perdia  o  príncipe, mas sabia que era ela que devia casar-se com  ele,  porque  era  ela  a  sua salvadora verdadeira! Uma    noite,  enquanto  chorava  desesperada  na praia, uma de suas irmãs saiu da água e lhe trouxe um punhal, dizendo:

- Mata o príncipe com este punhal mágico: serás novamente a sereiazinha e poderás voltar a viver connosco.

Ariel tomou o punhal e  atirou  longe,  pois  não  poderia  nunca fazer qualquer mal ao seu amado.

Dali a poucos dias foram celebradas as núpcias e Ariel se transformou em  branca espuma do mar.

Desde então, cada manhã, quando o príncipe passeia na praia, um

pouco de leve espuma chega sempre, docemente, a beijar-lhe os pés.

 

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